Dança das cadeiras na Docas do Rio de Janeiro

 

27/04/15 04:02 PM

 

 

No dia 15 de abril, as comunidades portuária e marítima do Rio de Janeiro, em seu almoço anual, promovido pelo Sindicato das Agências de Navegação Marítima e Atividades Afins do Estado do Rio de Janeiro (Sindario), homenagearam a atual diretoria da Companhia Docas do Rio de Janeiro (CDRJ), composta por três técnicos de carreira, há apenas 07 meses no comando da estatal. Acreditamos que a homenagem tenha sido verdadeira, pelo reconhecimento de um trabalho que está sendo bem conduzido (após décadas de desmandos), cujos efeitos positivos já eram sensíveis a todos que ali estavam presentes. Seria decepcionante verificar que diversos representantes do setor portuário e marítimo, além de diversas entidades respeitadas no comércio exterior, tenham prestado uma homenagem vazia, apenas por mero protocolo, uma espécie de circo de hipocrisias. Vamos aos fatos, então:

 

 

Não é novidade para ninguém que a CDRJ, como qualquer estatal brasileira, sempre foi usada como instrumento de distribuição de cargos, fatiada entre partidos políticos, o famoso aparelhamento estatal. Trata-se de uma companhia com centenas de problemas criados pelos diversos e incompetentes apadrinhados políticos que por ali passaram. Durante décadas, esses apadrinhados, além de afundarem as finanças da estatal, “sugando suas energias”, também destruíram o relacionamento entre seus funcionários através da falta de critério e privilégios dado aos que serviam aos apadrinhados incompetentes. Durante anos geraram-se desgastes, iras, ressentimentos, frustrações e outros diversos tipos de sentimentos negativos e conflituosos, que tornaram o ambiente interno muito complicado para um modelo de gestão eficiente. Com efeito, ao invés de focarem nos portos, a CDRJ focava apenas nos seus problemas internos.

Porém, em 21 de agosto do ano passado, o Ex-ministro dos Portos César Borges, em uma decisão acertada e rara no Brasil, deu oportunidade para que funcionários da Casa, com notório conhecimento no setor e da própria companhia (Doqueiros), ficassem a frente da CDRJ. Esses funcionários receberam os cargos com o grande desafio de reerguer a companhia e unir seus funcionários. A Atual gestão recebeu um enorme passivo para equacionar, em todos os sentidos e em todas as áreas da companhia. Agora, passados pouco mais de 07 meses, sem dar tempo suficiente para as mudanças pretendidas sejam consolidadas, o atual Ministro Edinho Araújo e o seu partido PMDB já querem mexer na diretoria da companhia, a começar pela presidência, segundo nota publicada no Jornal O Globo do dia 25 de abril  (clique aqui).

 

O candidato que o PMDB está indicado para ocupar (ou aparelhar) Presidência da CDRJ, segundo o jornal e segundo nossas fontes confirmaram, é o Ex-diretor Financeiro da CCX, mineradora de carvão da EBX do ex-megaempresário Eike Batista, Leonardo Pimenta Gadelha (a consulta sobre ele no Google é livre e válida!). O Grupo X ainda tem muitos interesses diretos no Porto do Açu, que é concorrente dos portos públicos do Estado do Rio de Janeiro, vale salientar.


Para piorar, chegou a preocupante informação/denúncia, dando conta que um determinado Deputado Estadual do PMDB, um dos principais líderes do partido no Estado, está com os olhos bem gordos apontados para a CDRJ, querendo as 03 cadeiras da Diretoria da estatal. Se as denúncias se confirmarem, aí será o “fim da picada” e teremos que, literalmente, jogar a toalha. Seja como for, procuraremos esse Deputado Estadual para confirmar suas pretensões políticas.

A CDRJ mal teve tempo de respirar e já estão sufocando novamente a empresa. Não estão dando tempo para que um trabalho seja consolidado. Não se faz gestão de uma empresa trocando sua presidência e sua diretoria em pouco mais de 07 meses. Isso está errado e apenas contribuirá para que a estatal saia novamente do bom rumo que, ao que tudo indica, está entrando. Cortarão a continuidade, prejudicarão projetos e estudos técnicos importantíssimos que estão em andamento. Temas relevantes para a eficiência da estatal e, consequentemente, dos nossos portos do Estado do Rio, serão engavetados. É o atraso e o obscurantismo que se avizinham, mais uma vez! Aliás, se confirmada, essa decisão do Ministro Edinho e de seu partido deve ser vista como um retrocesso.

São atitudes como esta, que olham apenas para a política, que fazem os nossos portos estarem décadas atrasados em relação ao mundo, e a ocuparmos, eternamente, as ultimas posições no ranking de eficiência. Não sairemos dessa lanterna entregando a administração dos nossos portos para pessoas apadrinhadas, não permitindo que exista continuidade de um trabalho, não dando tempo para que as ações sejam consolidadas.

Não estamos aqui defendendo X, Y ou Z. Estamos defendendo nossos portos, a CDRJ e a oportunidade para que a atual gestão tenha tempo de oferecer resultados, para o bem dos usuários, dos terminais e das comunidades portuária e marítima. Não é certo o que está para acontecer! Não é justo! Não é dessa forma que os portos do Rio de Janeiro crescerão.

 

Obviamente que, tendo tempo para oferecer bons resultados e não conseguindo oferecê-los, aí sim teríamos um motivo para trocas. No entanto, não acreditamos que um trabalho digno de homenagens por parte das comunidades portuária e marítima esteja sendo mal executado. Apenas 07 meses de prazo para resolver centenas problemas de uma companhia que foi literalmente “estuprada” pelos apadrinhados e seus partidos políticos, não é, nem nunca será um tempo razoável.

O que as comunidades portuária e marítima farão, após o almoço oferecido? Ficarão caladas para não correrem o risco de perderem a “simpatia” do candidato do PMDB? Não levarão ao Ministro a sua vontade pela continuidade? Ou terão a coragem de demonstrar que desejam que a atual diretoria consolide o seu trabalho, que inclusive foi digno de homenagens?

 

O Ministro Edinho não conversará com as comunidades portuária e marítima do Rio de Janeiro? Tomará a decisão de forma autoritária e à revelia dos que fazem os portos do Estado existir? Por que o Ministro Edinho não faz uma audiência com as comunidades marítima e portuária do Estado? Será que não pode voltar atrás?

Não sabemos o que as comunidades farão, mas tomaremos nossas providências, sendo, uma delas, a juntada de petição ao processo TC 0290832013-3, em curso no Tribunal de Contas da união (TCU), que vem travando a liberação das novas áreas para arrendamento. Denunciaremos esse escárnio, mostrando como as questões dos nossos portos estão sendo tratadas. Não será a primeira vez que nos manifestaremos ao TCU pedindo que não liberem as áreas, pois fizemos isso em fevereiro de 2014, oportunidade que imploramos para que o Tribunal mantivesse sua posição até Antaq regulasse o setor portuário, coisa que até agora não fez de forma eficiente, vez que a regulação da armação estrangeira é uma eterna pendência.

Existem histórias emblemáticas e tristes na CDRJ, cujos protagonistas foram justamente apadrinhados políticos de partidos que sempre fatiaram a estatal. Já teve pastor evangélico ocupando alto cargo na CDRJ, que promovia cultos na sede da Rua Acre. Nada contra religião e ao cargo religioso, mas, promover culto em empresa pública é um pouco demais! Teve também um indicado ao cargo de superintendente de um dos portos controlados pela CDRJ, que chegou para trabalhar e a primeira atitude foi a de perguntar onde era o cofre! Como não tinha cofre, ele abandonou o cargo, na mesma hora e sem dar satisfações. Parecia piada, mas era a pura realidade que a CDRJ passou com os cargos fatiados por apadrinhados políticos.

Em passado recente, outro apadrinhado ocupando alto cargo na estatal declarava na frente de Ministros que acesso ao porto não era problema da CDRJ. Por que a situação do portão 24 do Porto do Rio de Janeiro, por exemplo, está sendo resolvida apenas agora com a Prefeitura, destaque-se, desta feita, com a participação da CDRJ? Nossa denúncia ao MPF sobre o fechamento dos acessos aquaviários ao Porto do Rio para realização das regatas olímpicas foi feita sobre uma gestão que dizia que acesso não era problema da companhia e, por isso, cometeu varias ilegalidades.

Enfim, a pior coisa que pode acontecer com um porto é a entrega da sua administração para quem não é do ramo, não conhece o pátio, o cais, os profissionais e as necessidades dos seus players.

 

De nada adiantará contratar consultorias internacionalmente reconhecidas para mudar o modelo de gestão da CDRJ, se as ultrapassadas culturas de apadrinhamento, de fatiamento de cargos entre partidos e de aparelhamento estatal não mudarem.
 

 

André de Seixas
Diretor-Presidente Associação dos Usuários dos Portos do Rio de Janeiro - USUPORT-RJ
 

Tel: (21) 99830-2089
E-mail: presidencia@usuportrj.org 

 

 

 

 

 

   

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